Após inúmeras tempestades e dificuldades no mar, Ulisses e seus companheiros permaneceram por quase um ano na ilha da feiticeira Circe. Depois de tantos sofrimentos provocados pelos deuses e pelas forças da natureza, aquele período representou um raro momento de descanso. A vida na ilha era marcada por banquetes, vinho e tranquilidade, o que levou os marinheiros a esquecerem, pouco a pouco, as provações enfrentadas desde que deixaram sua terra natal, Ítaca.
Com o passar do tempo, porém, alguns companheiros começaram a lembrar do verdadeiro objetivo da viagem: voltar para casa. Após cerca de um ano, Euríloco e Polites falaram em nome de todos e pediram a Ulisses que retomasse a jornada. Recordaram-lhe que em Ítaca ainda estavam sua esposa Penélope, seu filho Telêmaco e seu pai Laertes. Sensibilizado pelo apelo dos companheiros, Ulisses decidiu comunicar a Circe que era hora de partir.
A feiticeira já esperava por esse momento e manteve a promessa de libertar Ulisses e seus homens. Contudo, explicou que ainda havia um grande obstáculo. Os navegadores estavam perdidos e não sabiam qual caminho seguir para retornar a Ítaca. Segundo Circe, antes de encontrar o caminho de volta, Ulisses deveria realizar uma jornada extraordinária: descer ao mundo dos mortos para consultar o espírito do adivinho Tirésias, único capaz de revelar o destino de sua viagem.
Circe explicou que Tirésias, mesmo após a morte, conservava o dom da profecia. Ele poderia indicar o caminho seguro para Ítaca e alertar Ulisses sobre os perigos que ainda encontraria. Para isso, o herói deveria viajar até uma região sombria, próxima ao reino de Hades e Perséfone, onde seria possível invocar as almas dos mortos por meio de rituais e sacrifícios.
Guiado pelas instruções da feiticeira, Ulisses e seus homens navegaram até uma terra distante e sombria, habitada pelos cimerianos, onde reinava uma noite eterna. Ali realizaram os rituais necessários para chamar os espíritos do além. Ulisses ofereceu sacrifícios e aguardou a chegada de Tirésias, enquanto inúmeras almas de mortos se aproximavam atraídas pelo sangue do ritual.
Durante esse encontro com o mundo dos mortos, Ulisses também viu a alma de sua mãe, Anticleia, que havia morrido durante sua longa ausência. Ela contou que Penélope continuava fiel e esperava pelo retorno do marido, enquanto Telêmaco crescia em sua ausência e Laertes vivia envelhecido e entristecido. O encontro emocionou profundamente o herói, que percebeu quanto sofrimento sua longa jornada havia causado à família.
Finalmente, o espírito de Tirésias apareceu e revelou as dificuldades que ainda aguardavam Ulisses. O adivinho explicou que o deus Poseidon continuava irado por causa do sofrimento causado ao ciclope Polifemo, seu filho. Ainda assim, indicou o caminho que poderia levar o herói de volta a Ítaca, alertando-o sobre perigos como as sereias, os monstros marinhos e a ilha do deus Hélio, onde seus companheiros deveriam evitar tocar no gado sagrado.
Após receber essas advertências, Ulisses compreendeu que sua jornada ainda estava longe de terminar. Mesmo assim, decidiu seguir fielmente os conselhos de Tirésias. Com coragem e prudência, ele preparou seus homens para continuar a viagem, sabendo que apenas inteligência, paciência e respeito aos deuses poderiam conduzi-los de volta à sua terra natal.
